Cidadão Kane e o poder manipulador da Rede Globo *


O filme Cidadão Kane, retrata a história de como o garoto pobre, porém muito ambicioso e de temperamento forte, Charles Foster Kane, se tornou o dono de 37 jornais e construiu assim seu império no jornalismo. Uma das coisas que observei ao assistir o filme Cidadão Kane é de que seu protagonista inovou o jornalismo da época com o seu próprio jeito de ser, trazendo novos rumos na história da comunicação. Exemplo disto é quando o personagem diante de uma crítica, responde “não sei dirigir jornal, apenas tento formas novas”.


Assim como Kane, o jornalista bilionário Roberto Marinho, foi muito temido no Brasil e odiado no mundo. Sozinho, ele conseguiu controlar o acesso de milhões de brasileiros com um hábito global. Na visão do cantor, Chico Buarque de Hollanda, Roberto era até mais poderoso que Kane, pois este nunca imaginou que teria todo aquele poder, e Marinho foi a força política mais importante do país, pois nada se fazia sem o consultar antes.

O favorecimento político da época colocou muitos amigos, parentes, e pessoas que fossem de agrado dos governantes daquela época, para comandar canais de emissoras de TV e rádio no país. A maioria dos donos (não diretores, pois é proibido) de canais de TV eram políticos.

Com isto, ao contrário de muitos jornais impressos, que eram caros e internacionais, a televisão já alcançava um público de mais de 100 milhões de pessoas, em um país que 25% dos adultos eram analfabetos. Assim, a Rede Globo nasceu, mas teve sua trajetória marcada por muitas irregularidades, tanto com políticos como diversos outros empresários, que ajudaram a mesma a crescer em audiência e se tornar assim a maior rede televisiva do Brasil. Mas ao mesmo tempo, com o seu jeito único de produzir notícias, a Globo se tornou assim sinônimo de seriedade e entretenimento para muitos brasileiros.

Com suas belíssimas imagens, repetições excessivas de sua identidade na tela, cinco estações, 63 afiliadas e cobrindo 99,2% do território brasileiro, a Globo conquistou aos poucos o seu primeiro lugar na audiência. As propagandas eram sempre de primeiro mundo. Os anúncios governamentais que algumas vezes mostravam os problemas do país eram exibidos confortavelmente ao lado de propagandas de produtos luxuosos, que muitos brasileiros sequer podiam imaginar em comprar.

Mais do que a trajetória de um homem, dono da maior emissora de TV do país, o documentário conta um pouco da história de todos os brasileiros. Problemas eram camuflados, como a pobreza e a fome, dentro do capitalismo selvagem, como era assim chamado por muitos. A diferença entre o estado de São Paulo com as outras regiões era enorme, e isto fica claro quando no documentário cita que 50% do território nacional pertencem a apenas 1% de sua população.

A Globo possuía já naquela época, o mesmo tamanho da BBC e 15 mil funcionários contratados, incluindo cerca de 500 escritores e atores. Até mesmo Silvio santos começou na Globo, mas pouco tempo depois se afastou e conquistou seu império no SBT. As novelas foram o início da supremacia da rede globo e apenas uma vez, a TV globo foi derrubada em audiência pela novela Pantanal, exibida na concorrente, Rede Manchete.

A emissora também defendeu o regime militar, e por isto, não foi tão censurada como os outros meios de comunicação da época. A tese de que ela não divulgou a realidade para seu público porque foi censurada, serviu como forma de se explicar para a sociedade brasileira agora, no período da democracia. O poder da Globo naquela época já era gigantesco, capaz até mesmo de causar inveja em algumas redes de TV dos EUA, Alemanha, França e da Inglaterra.

A Globo gastava já naquela época, 40% de seu orçamento em jornalismo, mas mesmo assim, era explícita a forma como Roberto Marinho e os chefes de jornalismo da TV globo manipularam, distorceram e ignoraram muitas notícias que envolvessem política.

Além disto, 30% da gravadora de Marinho na época, vinha dos discos da Xuxa e a maior parte do restante com a venda das trilhas sonoras de novelas com muitos sucessos americanos. Como disse em sua entrevista, o escritor, Dias Gomes, afirma que “o povo faz a televisão, a cabeça do povo que faz a televisão. A televisão no Brasil é o reflexo do próprio povo, porque o povo pensa e quer. Porque é uma televisão comercial, e sendo comercial ela precisa ter o primeiro lugar”.

Apesar de apoiar o partido de Lula nas eleições de 1989, o segundo debate do telejornal mais famoso da Rede Globo, o Jornal Nacional, exibido três dias antes da votação entre Collor e Lula, foi especialmente editado e montado para no final acabar elegendo Collor, mostrando uma manipulação grotesca da Globo.

Naquele período, o poder da Rede Globo alavancado pela ambição de Roberto Marinho e pelo Governo Brasileiro, já era enorme, hoje em dia este poder se torna incalculável. A manipulação excessiva da emissora perante seu público, não é mais novidade para a população, e mesmo assim, a Globo possui fiéis telespectadores.

Um exemplo disto foi quando Fátima Bernardes deixou a bancada do Jornal Nacional para colocar em prática outro projeto, que ainda não foi divulgado. A audiência neste dia cresceu, enquanto o JN usou uma parte do seu horário para relembrar momentos importantes da carreira desta jornalista e de Patrícia Poeta, a nova apresentadora. Pessoas que não tinham o costume de assistir ao jornal televisivo, neste dia ligaram a TV para assistirem a despedida de Fátima.

Enfim, pode-se concluir que apesar de Roberto Marinho não estar mais vivo, todo o sucesso que ele conquistou por meio de sua Rede Globo, prova que seu poder nunca foi apenas político, mas um poder totalmente simbólico, capaz de construir a sua própria realidade dentro de uma “telinha”.

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